“Foi tudo assim como está aqui, foi verdade, tudo verdade.” É com essa afirmação que Venancia da Silva Vieira inicia o registro de suas memórias, em 1955, em um caderno cuidadosamente manuscrito. Nele, a autora, que frequentou a escola por apenas quatro anos, reconstrói sua infância e juventude — do nascimento, em 1924, ao casamento, em 1945. Os episódios narrados são marcados pela pobreza, por relações familiares conturbadas, pelo trabalho precoce e pelas migrações constantes entre os estados de Minas Gerais e Paraná.
Ao longo do caderno, surgem cenas do cotidiano na roça, do trabalho como empregada doméstica ainda criança, das privações materiais e da convivência familiar. A relação com a mãe, caracterizada por cuidado e violência, e o vínculo com o pai, figura de escuta e proteção, estruturam parte central da narrativa. O fantasma da fome, da doença e da morte, e a disciplina rígida dos costumes compõem o retrato de uma vida moldada pela necessidade.
Mas o drama da desigualdade so